Powered By Blogger

sábado, 2 de outubro de 2010

Com a dor sempre vem o remédio

Têm coisas que são inevitáveis, outras que optamos. A dor, por exemplo, é inevitável. Já o sofrimento é uma opção. Diante da dor, abaixamos a cabeça, em sinal de respeito. Agradecemos a oportunidade de enfrentar mais um desafio e pronto. Não há nada a fazer. A vida continua e por não ser injusta, nos oferece uma escolha: crescer com a experiência ou mergulhar no mais profundo sofrimento.

Durante muito tempo, escolhi a segunda opção. E se não me policio, volto a sofrer por qualquer coisa. Geralmente, um coquetel de sentimentos varridos para debaixo do tapete que aflora quando meus glóbulos brancos se distraem e não me defendem dos vírus do rancor, da inveja, do egoísmo. Mas, quando percebo os invasores, tomo vergonha na cara e faço uma faxina. Olho de frente as mazelas que não gosto de ver. E aceito – depois de espernear muito, morrer de pena de mim, maldizer a sorte, voltar sete casas na minha busca espiritual e geralmente perder alguma coisa bem maior.

A primeira vez que sofri feito um boi ladrão foi quando meu gato, Toninho, fugiu. Eu tinha oito anos e não conseguia entender porque ele tinha feito isso comigo. Me senti rejeitada, injustamente abandonada e não quis mais saber de gatos. Na época, ninguém me disse que felinos fogem por mil motivos, menos para magoar a sua dona. Então, dois anos depois, meu pai morreu de repente. Fiquei em estado de choque. Como meu pai pôde fazer isso comigo? Por que ele me abandonou? Novamente não conseguia entender. E, sofrendo por me sentir rejeitada e injustamente abandonada, decidi que tanto adultos como gatos não eram de confiança e, – pior ainda – não gostavam de mim!

É engraçado como repetimos reações. Não importa a situação ser completamente diferente, desperta em nós a mesma dor, por isso engatamos o mesmo sofrer. Talvez, por isso, eu tenha passado anos da vida enfileirando dissabores. Um simples final de um namorico doía como a fuga do meu gato, a morte de meu pai. Levei tempo para perceber que eu tinha optado por isso. Antes da dor me surpreender, eu já estava pronta para sofrer. E sofria. Não aprendia nada, não tirava nada de bom das experiências, não considerava a minha participação nos finais infelizes.

Casei, separei, tive filhos, cachorros e gatos até finalmente aprender que na vida nada acontece para maltratar você. E que os males sempre vêm para o bem. Porque tudo, absolutamente tudo, é uma lição para a gente crescer, se fortalecer e entender que olhando para o próprio umbigo somos fracos. Mas se a dor vivida me permite reconhecer e zelar pelo meu próximo – que também sente dores e busca um alento – então ela, a dor, faz sentido.

Fiz anos de terapia para perceber que tudo de ruim que vivemos tem um propósito maior do que simplesmente machucar. E confesso que sou grata pelo meu duro aprendizado, que me deixou mais apta a ser feliz. Me ensinou a ter compaixão pelo próximo que, exatamente como eu, tem medo de sucumbir aos momentos dolorosos. Poder dizer, com conhecimento de causa, que não, a gente não morre. E que logo, logo, vai passar. Como tudo. A vida é uma dádiva. Um presente maravilhoso.

Com a dor, sempre vem o remédio - se a gente não levar para o pessoal, não se colocar no centro do mundo, não ficar só se lamentando. Porque têm tantas pessoas enfrentando situações tão mais difíceis. Se pudermos levantar o rosto e doar um pouquinho da nossa atenção, um pouquinho do nosso tempo, um pouquinho do nosso amor, nos curaremos a todos. Tenho certeza.



 
Regina Valadares é jornalista, autora do livro Só uma mulher sabe o que é (editora 34) e uma estudiosa de astrologia, cabala, física quântica e espiritualidade.
Fonte:http://www.2020brasil.com.br/publisher/preview.php?edicao=0708&id_mat=2127

Nenhum comentário: